Do nada ela aparece, assim de repente e some. A rua sente sua falta e nota sua ausência. Volta e meia se levanta, olha pro lado e se desmancha, sobre a cama, que lhe é de fato seu refúgio. Acende um cigarro, dá dois tragos, daqueles tragos ásperos, onde se sente quimar a garganta. Sua roupa amassada, evidência de uma noite que terminou onde realmente deveria. Não se move por alguns instantes, apenas observa a dança da fumaça que se mistura à luz baixa de um abajour. É madrugada e o dia teima em permanecer noite, escuro, cheio, a escuridão preenche as lacunas do vazio onde predominam azul e branco. Mais um trago no cigarro e assim novamente, percebe agora o frio que a consome aos poucos, mesmo assim não se move. Seu corpo nu reflete a luz da pequena lâmpada, ela se deita, o teto cada vez mais perto do chão, mais uma noite em que a entrega superou a real necessidade. A cabeça roda, entretanto, roda sem movimento algum, o corpo está parado. Mergulhada em desejos profundos, um grito avassalador lhe percorre a alma, sim, ao seu lado, o corpo, também despido, de um homem que não a ama, um homem, que não a venera, que não lhe satisfaz como um verdadeiro homem deveria. Um sujeito estranho, encolhido sobre um punhado de roupas, abatido, após ter feito festa daquela noite calma e fria. Agora encostada na cabeceira, observa seus pés por alguns minutos, resolve se cobrir mas não o faz, a manhã parece se aproximar, o cinza torna evidente a mudança de responsabilidades cotidianas. É hora de levantar e abrir a janela, outro cigarro se ajeita entre seus doces lábios, o dia nasce e a rotina segue, numa nova tarde da noite, seus sonhos se realizam, seus desejos tomam o lugar da pura e simples necessidade, mais alguns goles numa bebida quente, mais alguns tragos num filtro branco, sempre manchado de batom ao terminar. O calor sustenta sua diversão por mais algum tempo, logo o frio estará envolvendo sua pele macia, logo o breu tornará claro o queimar de seu cigarro. A dança nunca se repete, nunca, por mais perfeito que seja feito o movimento, a liberdade somada ao vento, proporciona a cada trago, uma nova, bela e suave dança, em que nos perdemos ao observar, em que nos entregamos sem perceber, tal qual ficamos sem reação, reflexo ou movimento, assim levemente em ritmo e tom decadente, parelho à situação de desgraça, bebendo e comendo fumaça.
